
Biodegradação e biorremediação
Joana Costa, microbióloga
Na Natureza os átomos que compõem a matéria circulam livremente, integrando diferentes elementos, entrando e saindo sucessivamente do ciclo de vida de microrganismos, plantas e animais numa harmonia perfeita e contínua.
A biodegradação é o processo natural que ocorre no ambiente, levado a cabo por seres vivos decompositores, no qual a matéria orgânica é degradada nas suas moléculas elementares com produção de energia para a célula e libertação de CO2 e H2O no meio.
Com os avanços técnicos no desenvolvimento de materiais, principalmente nos últimos 100 anos, muitos elementos novos foram sendo sintetizados e alguns deles vieram quebrar esta continuidade, desafiando a espantosa capacidade dos decompositores de biodegradar, biotransformar, ou bioacumular contaminantes.
A biorremediação surge como o processo técnico que envolve a aplicação de sistemas vivos, microrganismos, fungos, plantas ou mesmo enzimas com metabolismos específicos, na recuperação de ambientes contaminados.
Dependendo da natureza quali e quantitativa dos contaminantes e das características gerais do ambiente onde se encontram, a sua biodegradabilidade pode muitas vezes ser limitada ou até mesmo nula. Um dos maiores problemas dos contaminantes é o acesso a eles pelo facto de serem muito pouco ou quase nada hidrossolúveis enquanto todos os sistemas vivos por sua vez se encontram diluídos em água.
Contudo, os microrganismos, por serem seres unicelulares, apresentam um incrível mecanismo de degradação e uma admirável capacidade de adaptação às condições impostas, que lhes permitiu desenvolver meios para atacar a estrutura molecular destes compostos (xenobióticos) e usá-los como fonte de carbono e energia.
Assim, por exemplo, para superar a barreira existente na diferença de fases em que se encontram, determinados microrganismos adquiriram a capacidade de produzir biosurfactantes. Estas moléculas são anfipáticas, ou seja, apresentam uma extremidade hidrofóbica e outra hidrofílica e desta forma conseguem atacar compostos poluentes ligando-se a eles, trazendo-os para a fase aquosa onde podem então degradá-los. Simplificando, certos microrganimos adaptaram-se e aprenderam a produzir moléculas que actuam um pouco como a acção de um sabão que consegue tornar as gorduras solúveis em água, com a vantagem de serem totalmente biológicos e capazes de lentamente solubilizar estruturas tão sólidas como o plástico.
Desta forma consegue-se a transformação ou decomposição total ou parcial de compostos tóxicos que se acumulam na natureza, tais como hidrocarbonetos (petróleo e seus derivados), bifenis policlorados (PCBs), hidrocarbonetos poliaromáticos (PAHs), subtâncias farmacêuticas e metais. Não quer dizer que este processo não apresente limitações ou que não haja alternativas a ele, mas os benefícios comprovados já mostraram ser uma solução viável na resolução de muitos problemas de contaminação.
Assim, a biodegradação de tintas na água, a absorção por parte de plantas (fitorremediação) de metais pesados em solos contaminados, biodegradação de fertilizantes ou a limpeza de derrames petrolíferos são alguns exemplos fortes da extensão de aplicação da biorremediação.
A aplicação de processos biológicos de descontaminação tem-se intensificado nos últimos anos pois tem demonstrado ser uma solução viável e sustentável na limpeza de ambientes contaminados.
Graças a um empenho geral, a preocupação com o ambiente é cada vez maior e desta forma tem aumentado, em diversos campos, o interesse na utilização de sistemas naturais como substituição a processos que se mostram prejudiciais para a nossa mãe Natureza. A Terra sempre nos deu tudo o que precisamos e nós nem sempre a tratamos com a atenção e respeito que merece. É através das pequenas acções de cada um que juntos conseguiremos participar na tomada de consciência global necessária para preservar esta casa onde queremos e precisamos de continuar a viver cada vez melhor.
(Joana Costa é microbióloga e colaborou com o consórcio Interuniversitario Nazionale "La Chimica per l'Ambiente" (INCA) em Veneza, Itália desde Novembro 2005 a Dezembro 2006 onde desenvolveu investigação sobre biorremediação. Este texto é uma participação espontânea originada pela sua visita à exposição no Petit Cabanon, no Porto em Novembro/Janeiro de 2008.)
(Nota 2: este texto será publicado no catálogo do Projecto DECON de Marta de Menezes)