mapa de trabalhos
é um trabalho de campo sobre auto-organização e auto-construção na cidade do Porto.
Após o abandono de décadas, a habitação no centro do Porto condensa problemas físicos, estruturais e uma estrutura social debilitada. Por toda a cidade do Porto se vêem sinais: “vende-se, aluga-se”. A cidade está envelhecida, negligenciada e desqualificada, a habitação que oferece está decadente, os moradores têm poucos meios e as leis do arrendamento não atraem novos habitantes.
A crise da cidade despertou os interesses financeiros para aquisição e a reconstrução abriu oportunidades a investidores privados. Nos anos recentes, um pequeno grupo de grandes investidores (bancos, construtoras e companhias financeiras) apoiados por um conjunto de programas de incentivo camarário, adquirirem grandes quarteirões e edifícios, devolutos ou deslocalizando os seus inquilinos, promovendo a reconstrução por uma lógica de gentrificação. O discurso oficial é homogeneizado, os seus resultados são edifícios reconstruídos numa lógica de condomínio fechado, compostos por fogos de habitação tipificada complementada por serviços de luxo.
Fazendo um bypass à lógica dicotómica investidor / morador, um movimento invisível e indetectável está a resgatar alguns edifícios da decadência e a reactivar o tecido da cidade. Começando por reocupar edifícios antigos, um grupo considerável de artistas, arquitectos, profissionais liberais e de agentes nos campos da cultura, vem transformando pelos seus meios este estado de abandono, reactivando as ruínas da cidade.
As modalidades de operação são fundamentalmente distintas da rígida lógica dos investidores. Usam soluções inventivas e flexíveis através do envolvimento pessoal e afectivo nas obras. Os seus estaleiros combinam performances de materialidade, espacialidade e temporalidade, seja a organização em auto-gestão, seja a dilatação dos trabalhos no tempo, a co-habitação com os trabalhos de construção, ou a reinterpretação flexível de vazios legais e financeiros, seja negociando propriedades físicas com modalidades temporais (aguardando herdeiros, permutando propriedades, recuperando penhoras).
A produção/construção destes edifícios incorpora práticas do espaço que invertem categorias tradicionalmente distintas, seja a apropriação do espaço pelos habitantes, que são aqui também construtores, seja a participação dos clientes no projecto, que são aqui também projectistas, construtores e moradores.
Os mapas de trabalhos pretendem abordar este fenómeno através dos aspectos materiais, sociais, técnicos e pessoais, evitando o discurso da autoria, a representação, e evitando sobretudo, as narrativas heróicas dos pioneiros. Deseja-se encontrar os testemunhos posicionados nos seus processos de trabalho, expondo como e quando os activam, bem como afectam a sua vida e a sua cidade.
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8.9.08
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